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STJ reconhece filiação socioafetiva após morte de pai, mesmo com retorno de filho à família biológica
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Atualizado em 07/08/2025
A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça – STJ decidiu que o reconhecimento da filiação socioafetiva póstuma é possível mesmo se o filho voltar a conviver com a família biológica. Com esse entendimento, o colegiado confirmou o vínculo entre um homem e seu pai socioafetivo após ele ter voltado a morar com a mãe biológica.
Segundo informações do Tribunal, o autor da ação foi entregue aos pais socioafetivos quando tinha apenas dois anos. Eles prometeram adotá-lo formalmente, mas nunca fizeram isso. Ele cresceu com essa família até a separação do casal e, já adolescente, decidiu morar com a mãe biológica em outro Estado.
Mais tarde, na vida adulta, passou a conviver diariamente com o pai socioafetivo, até o falecimento dele. Durante esse tempo, o pai pensou em adotá-lo oficialmente, mas a ideia foi deixada de lado porque o filho queria manter o nome da mãe biológica no registro, em reconhecimento ao apoio que ela lhe deu durante a fase difícil da separação.
As instâncias ordinárias reconheceram o vínculo de paternidade socioafetiva mesmo após a morte do pai e manteve também o laço com os pais biológicos. Ao negar o recurso das irmãs socioafetivas, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro – TJRJ entendeu que havia provas suficientes da existência de multiparentalidade. O Tribunal destacou ainda que afastamentos ou conflitos familiares não anulam o reconhecimento de uma relação familiar.
No recurso ao STJ, as irmãs alegaram que o pai nunca expressou de forma clara a intenção de adotar o autor da ação, como exige o artigo 42, § 6º, do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA. Segundo elas, o pedido de reconhecimento da filiação socioafetiva teria como único objetivo garantir direito à herança.
Adoção e filiação
Ao analisar o caso, a relatora, ministra Nancy Andrighi, destacou que adoção e filiação socioafetiva são coisas diferentes. Segundo ela, a adoção é um processo formal que, quando há pais biológicos, exige a retirada do poder familiar deles. Já a ação de reconhecimento de filiação socioafetiva serve para declarar um vínculo afetivo que já existe na prática, e não impede que a pessoa tenha mais de um vínculo familiar, permitindo a multiparentalidade.
"Mesmo que diferentes os institutos da adoção e da filiação socioafetiva no modo de constituição do vínculo de filiação, verificada a posse do estado de filho, que consiste no desfrute público e contínuo da condição de filho, é viável o reconhecimento da filiação socioafetiva, mesmo que após a morte do pai ou da mãe socioafetivos, como também ocorre na hipótese de adoção prevista no artigo 42, § 6º, do ECA", detalhou a ministra.
A relatora observou que as regras do ECA invocadas pelas recorrentes não se aplicam ao caso, pois a discussão gira em torno do reconhecimento de filiação socioafetiva de pessoa maior de idade. Da mesma forma, segundo a ministra, não há qualquer violação ao artigo 1.593 do Código Civil, uma vez que o dispositivo admite o reconhecimento de relação socioafetiva como vínculo de parentesco.
Nancy Andrighi lembrou ainda que o acórdão do TJRJ trouxe fundamentação consistente quanto à viabilidade de reconhecimento da relação socioafetiva, de forma que sua alteração exigiria o reexame de fatos e provas no recurso especial, o que é proibido pela Súmula 7 do STJ.
"Ainda que o autor tenha passado a residir com a mãe biológica na fase adulta, em razão da separação tumultuosa dos pais socioafetivos, tal fato em nada interfere no seu pertencimento à família socioafetiva, que o acolheu desde tenra idade, prestando-lhe todo o carinho, afeto e educação de uma verdadeira família", concluiu a ministra ao negar provimento ao recurso.
O processo corre em segredo de Justiça.
Posse do estado de filho
Para a advogada, mediadora e professora Rose Melo Vencelau Meireles, membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM, a decisão foi acertada porque, segundo ela, a socioafetividade se caracteriza pela posse do estado de filho – ou seja, pela vivência social como se filho fosse – independentemente de uma declaração formal de vontade.
“De acordo com o que foi divulgado, apesar de o filho ter voltado aos cuidados da mãe biológica com a separação dos pais socioafetivos, ele retornou ao convívio do pai socioafetivo na fase adulta, o que parece demonstrar que o vínculo era permanente”, analisa.
A especialista considera que as relações entre pais e filhos nem sempre são lineares. “O eventual afastamento de um filho, especialmente em circunstâncias como o divórcio, infelizmente se mostra comum, e não é causa para questionamento da filiação biológica ou socioafetiva. Não teria sentido a filiação socioafetiva se desfazer quando um conflito entre os pais ocasiona o distanciamento, seria como penalizar o filho duas vezes.”
Ela reitera que filiação socioafetiva e adoção são institutos distintos e explica que a diferenciação quando o vínculo afetivo é claro, mas não houve adoção formal.
“Para constituir o parentesco pela adoção, é requisito legal que o vínculo jurídico com a família biológica seja desfeito, conforme o ECA, de modo que a filiação adotiva substitui a biológica e, de fato, é uma modalidade de família substituta”, esclarece. “Por outro lado, na filiação por socioafetividade, os vínculos biológicos permanecem, e assim os arranjos familiares ficam mais ricos, porém mais complexos.”
Quanto à alegação de que o pedido de reconhecimento de filiação socioafetiva post mortem teria motivação exclusivamente patrimonial, a advogada observa que esse questionamento é comum, já que o status de filho implica também a condição de herdeiro. “Isso nem sempre agrada os demais herdeiros”, diz.
Para a advogada, “a socioafetividade está registrada ao longo da história de vida de pai e filho por meio da chamada posse de estado de filho que, uma vez comprovada, constitui critério autônomo para atribuição de parentesco”.
Ela destaca ainda que a Constituição garante a igualdade entre os filhos e assegura os mesmos direitos independente da origem da filiação. “O interesse patrimonial é legítimo, por isso esse tipo de argumento pode se configurar como uma espécie de assédio, quando tem por objetivo desabonar o filho socioafetivo, colocando-o como ‘pessoa interesseira’”, conclui.
Por Guilherme Gomes
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