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As memórias afetivas de lugares e pessoas
Jones Figueiredo Alves
Devemos viver com atenção suficiente para acolher o que acontece e, depois, lembrar com cuidado. Guardar os lugares, dizer os nomes, contar o que experienciamos. Assim, a experiência ganha duração, permanece e pode ser compartilhada, como quem abre a porta de uma casa querida (a própria vida) para que outra pessoa também conheça sua luz.
Não esquecer os nomes é expressar gratidão pelo que vivemos. São eles que dão rosto às lembranças e nos permitem reconhecer quem participou dos momentos que ainda nos acompanham. Um nome pronunciado com afeto pode devolver à memória uma voz, um gesto, uma maneira de sorrir. E, com eles, todo um tempo vivido.
Por isso, guardo comigo os lugares que conheci, as pessoas que encontrei e o que vivi junto delas. Esquecer seria perder algo da riqueza desses encontros, deixar que os momentos se tornassem indistintos, sem a valia que tiveram na construção de quem sou.
Sempre me acostumei a não deixar a vida vulgar, esquecida em qualquer canto. Procuro reconhecer o valor de cada experiência, mesmo daquelas que pareceram pequenas quando aconteceram. Há lembranças cuja importância somente o tempo nos ensina a compreender.
Os lugares possuem uma existência que ultrapassa seus endereços. Uma casa pode continuar a nos abrigar muito depois de termos saído dela. Uma rua pode conservar os passos da infância, embora suas calçadas tenham mudado. Um restaurante guarda, além do sabor, a conversa à mesa, a companhia escolhida, a alegria de uma ocasião. A memória reúne essas presenças e lhes oferece uma morada interior e os nomes indeléveis.
Às vezes, basta um aroma, uma música ou uma palavra para que essa morada se abra. Retorna a tarde inteira, com seus pequenos acontecimentos. Lembramos onde estávamos, quem nos acompanhava e o que sentíamos. O tempo transcorrido ganha, por um instante, a proximidade de algo que ainda podemos tocar.
A lembrança permite reconhecer quanto recebemos daquela convivência e como ela continua a participar de nossas escolhas, de nossos hábitos e até de nossa maneira de acolher os outros.
Lembrar exige cuidado. A memória é humana, seleciona, esmaece, por vezes confunde. Há detalhes que se perdem, apesar de nosso desejo de conservá-los. Por isso, dizer os nomes, escrever as histórias e saber quem esteve conosco são maneiras de cuidar do vivido.
Uma fotografia encontra profundidade quando sabemos quem aparece nela, onde foi feita e por que aquele instante mereceu ser guardado.
Contar essas histórias é oferecer aos que chegam depois uma possibilidade de pertencimento. Filhos, netos e amigos podem conhecer, pelas nossas palavras, uma casa que já não existe, uma cidade transformada, uma pessoa com quem nunca conviveram. Recebem algo da atmosfera desses encontros e compreendem melhor as raízes dos afetos que lhes transmitimos.
Essa disposição para lembrar começa na maneira como vivemos o presente. Quem presta atenção percebe o acolhimento de quem o recebe, aprende o nome de quem o atende, escuta uma história sem apressar seu desfecho. A atenção dá espessura ao cotidiano. Faz com que uma passagem se torne encontro e que o encontro encontre lugar em nós.
Cultivar memórias afetivas me ajuda a reconhecer a vida que tive e a habitar com mais inteireza a vida que ainda acontece.
Cada lembrança querida ensina algo sobre o que merece meu tempo, as pessoas, as descobertas, as presenças.
As memórias afetivas dos lugares, sem esquecer seus nomes, são necessárias para registrar como acrescentamos mais vida na vida. Ao compartilhá-las, prolongamos a luz que recebemos e permitimos que ela alcance outras pessoas.
Não esquecer os nomes de lugares e pessoas é dar melhor sentido à vida. Do contrário, tudo seria simplório, seriamos menos felizes.
Em tempos de poucas afetividades, as memórias são excelentes rumos aos afetos.
Deixemos sempre aberta a porta da casa da vida para nada esquecer.
Jones Figueirêdo Alves é
Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista
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