Artigos
O tempo e a coragem de pensar
Jones Figueiredo Alves
Vivemos sob o império da velocidade. Os acontecimentos já não chegam, atropelam-nos. As notícias não esperam confirmação, as imagens precedem os fatos, as opiniões antecedem o conhecimento e os julgamentos, muitas vezes, são pronunciados antes mesmo de compreendermos aquilo que estamos julgando. Há algo quase imoral nessa velocidade, porque ela subtrai do homem um dos atributos essenciais de sua humanidade: o tempo de pensar.
A inteligência natural é, por sua própria grandeza, uma inteligência que necessita de tempo. Precisamos observar, comparar, duvidar, interpretar, recordar, relacionar e, somente depois, compreender. O pensamento humano amadurece. Uma ideia verdadeira raramente nasce pronta. Ela é trabalhada pelo silêncio, pela experiência, pela leitura e pelo confronto com outras ideias.
A tecnologia, entretanto, instituiu outro relógio. Tudo deve ser instantâneo. A notícia é instantânea, a reação é instantânea, a indignação é instantânea. Até mesmo a verdade parece obrigada a competir em velocidade com a mentira.
E aí reside um dos paradoxos do nosso tempo: nunca tivemos tanto acesso à informação e talvez nunca tenhamos disposto de tão pouco tempo para transformá-la em conhecimento.
Informação não é conhecimento. Conhecimento não é sabedoria. E opinião não é pensamento. Essa distinção torna-se indispensável.
As redes sociais democratizaram a palavra, o que representa extraordinária conquista. Mas democratizar a palavra não significa democratizar automaticamente o conhecimento. O direito de opinar pertence a todos; a autoridade de uma opinião, porém, depende das razões que a sustentam.
O problema surge quando desaparece essa diferença.
Passamos a viver numa sociedade em que opiniões fundamentadas se tornaram objetos escassos, quase artigos de luxo. A reflexão exige esforço; a opinião instantânea, não. Pensar pressupõe dúvida; opinar compulsivamente exige apenas certeza. E quanto menos alguém conhece a complexidade de determinado assunto, mais facilmente pode ser seduzido pela simplicidade de uma resposta absoluta.
Nesse ambiente surge a personagem emblemática do nosso século, o influencer. Não se trata, evidentemente, de condenar indistintamente aqueles que utilizam as novas plataformas para comunicar ideias. Há excelentes divulgadores de conhecimento. O fenômeno preocupante é outro, a influência desvinculada do saber.
Pela primeira vez em escala planetária, uma pessoa pode exercer enorme autoridade sobre milhares ou milhões de indivíduos sem que essa autoridade tenha sido construída pelo estudo, pela experiência ou pela responsabilidade intelectual. O número de seguidores passa a funcionar como uma espécie de certificado de credibilidade. Popularidade e conhecimento, entretanto, pertencem a categorias inteiramente diferentes. É nesse ponto que a filosofia deixa de ser luxo acadêmico para tornar-se necessidade civilizatória.
Nenhuma tecnologia deveria dispensar o homem do dever de pensar.
Precisaremos de uma nova educação. Não apenas uma educação técnica, destinada a formar pessoas capazes de operar máquinas, sistemas e algoritmos, mas uma educação profundamente humana. Uma educação que devolva importância à filosofia, à literatura, à história, às artes, à ética e às humanidades. Precisamos ensinar novamente o valor da dúvida, da leitura demorada, do argumento e da escuta.
Por isso, diante da velocidade vertiginosa do mundo contemporâneo e dos impactos da I.A., talvez o gesto mais revolucionário seja simplesmente parar para pensar. E, sobretudo, a coragem de pensar.
Porque a grande questão do nosso século não será saber até onde chegará a inteligência artificial, e sim saber, quando ela chegar lá, a inteligência humana ainda estará disposta a pensar por si mesma.
Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista
Os artigos assinados aqui publicados são inteiramente de responsabilidade de seus autores e não expressam posicionamento institucional do IBDFAM