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Do lado de fora da festa
Maria Luiza Póvoa Cruz[1]
Imagine chegar a um restaurante e descobrir que o cardápio só existe por meio de um QR Code. Ou precisar acessar sua aposentadoria e perceber que o procedimento depende de reconhecimento facial, senha, aplicativo e validação digital. Tente marcar uma consulta, resolver uma pendência bancária ou falar com um atendente humano. Para milhões de idosos brasileiros, situações como essas não são pequenos incômodos do cotidiano. São barreiras reais ao exercício da cidadania.
A sociedade comemora os avanços tecnológicos, e com razão. A tecnologia simplifica processos, reduz distâncias e amplia possibilidades. O problema surge quando a inovação passa a substituir completamente as alternativas acessíveis para parte da população. Nesse momento, o que deveria incluir passa a excluir.
O filósofo francês Pierre Lévy alertou que toda nova tecnologia cria seus excluídos. A frase parece especialmente atual quando observamos a realidade das pessoas idosas. Segundo pesquisa divulgada pela Agência Brasil, a exclusão digital afeta 20,5 milhões de brasileiros, o equivalente a 10,9% da população com 10 anos ou mais. Entre os idosos, o principal motivo para não utilizar a internet é a falta de familiaridade com as tecnologias, apontada por 66,1% dos entrevistados.
O paradoxo é evidente. Nunca se falou tanto em inclusão, mas, ao mesmo tempo, cresce o número de serviços que exigem habilidades digitais para serem acessados. A aposentadoria, o atendimento bancário, os serviços públicos, as compras e até a convivência social migraram para ambientes virtuais. Quem não acompanha esse movimento corre o risco de ficar isolado.
E o problema não se resume ao desconforto. A exclusão digital aumenta a vulnerabilidade. Auditoria da Controladoria-Geral da União revelou que, entre 1.273 beneficiários do INSS entrevistados, 97,6% afirmaram não ter autorizado descontos associativos realizados em seus benefícios. A dificuldade de compreender e operar sistemas digitais torna muitos idosos alvos fáceis para golpes, fraudes e abusos.
Mas talvez a reflexão mais importante seja outra. O Brasil está envelhecendo. O mundo está envelhecendo. E a tecnologia continuará avançando em velocidade cada vez maior. Os idosos de hoje são os primeiros a enfrentar esse desafio em larga escala, mas certamente não serão os últimos.
Afinal, aqueles que hoje desenvolvem aplicativos, criam plataformas digitais e dominam as ferramentas tecnológicas também envelhecerão. E provavelmente enfrentarão tecnologias que ainda nem existem, criadas por gerações futuras. A exclusão digital do idoso não é um problema deles. É um retrato antecipado do futuro de todos nós.
Por isso, discutir inclusão digital não é um gesto de gentileza ou solidariedade. É uma questão de cidadania, dignidade e planejamento social. Uma sociedade verdadeiramente moderna não é aquela que apenas cria novas tecnologias, mas aquela que garante que ninguém seja deixado para trás por causa delas.
Se o futuro é digital, ele precisa ser também humano.
[1] Advogada especializada em Direito de Família, presidente da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa do Ibdfam.
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