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Viver é a vontade de viver
Jones Figueirêdo Alves
Quando Galileu Galilei, ao completar 75 anos, foi indagado sobre a sua existência, retrucou que não lhe interessava muito o passado, mas os seus próximos 25 anos. Nisso, um axioma de vida, o de estarmos despertos para o tempo seguinte, o do vir-a-ser, a infinitude de cada dia que acrescenta mais vida na vida. É a primazia do porvir sobre o pretérito.
Bem a propósito, o título acima reflete uma frase cunhada pelo nosso eminente amigo, o consagrado médico Edgard Pessoa de Melo que, no último dia 31.03, consagrou os seus 75 anos. Ao cumprimenta-lo, expressou ele um outro axioma, afirmando: a vida é feita de vontade de vida.
De fato, a experiência do “ser humano” é a experiência de buscarmos humanamente mais respostas, valendo-nos das explicações emotivas que irradiam a vida. Somos feitos, afinal, de encontros e de estados de espirito. Fertilizamos o tempo com auroras, sonhos, crenças e realizações.
Michel de Montaigne desafiou, topicamente, os experimentos de vida atinentes, entre perguntas e respostas de “como viver” e “como se deve viver”. Tais questões levou-o a experienciar e colocar em análise as motivações de vida, em saberes das buscas de viver bem e de viver melhor a vida. A escritora inglesa Sarah Bakewell, em sua obra “Como viver” (Objetiva, 2012), produzindo uma biografia de Montaigne em uma pergunta pragmática e vinte tentativas de resposta, refere que era ele próprio o exemplo mais à mão de um ser humano cuidando da vida, fazendo muitas perguntas sobre si mesmo.
No ponto, saber a respeito de si mesmo, ensina-nos respostas sobre os outros, para entendermos melhor as pessoas a partir das próprias experiencias de vida. Com suas perguntas renascentistas, nos 107 ensaios que escreveu, iniciando um novo gênero literário, o dos “Ensaios” (termo que ele criou), Montaigne cada vez mais se faz contemporâneo, colocando suas perguntas à prova, como um verdadeiro guia para a vida. A respeito da obra de Montaigne, referiu Gustave Flaubert que “não o leia como as crianças, por divertimento, nem como os ambiciosos, para se instruir. Não, leia-o para viver”. Sim, em discernimentos urgentes de vida.
Curiosamente, “essayer” significa, em francês, simplesmente “tentar”. Ou seja, no caso do tema aqui exposto, ensaiar a vida será sempre, de forma objetiva, fazer a experiencia de vida, a cada dia, em consequências lógicas e resultados práticos da vontade de viver.
A vontade de viver é um impulso humano em vinculo indissolúvel com a esperança permanente de melhorias futuras e ao cultivo dos pequenos prazeres diários. Mesmo em tempos difíceis, permitamo-nos criar e recriar, com ações consistentes de vida, em prol dessa vontade. Sonhos ou objetivos nutrem a motivação, no potencial perseverante de vida. Ao revés, a inação de vida ou a falta de vontade de viver implicam um sintoma chave de depressão.
O filósofo alemão Arthur Schopenhauer descreveu a "Vontade de Vida" como uma força incessante que impulsiona o ser a persistir na existência, independentemente das limitações. Em seus “Aforismos para a sabedoria da Vida”, discutiu a arte de tornar a vida agradável e feliz, na medida das possibilidades pessoais. A sua declaração para uma vida feliz é uma obra-prima. Como uma obra-prima deve ser a vida de cada um.
Viver de verdade exige coragem para assumir o controle da própria trajetória, superando quedas e cultivando a paixão pela existência. A vontade de viver se manifesta quando colocamos alma e propósito nas tarefas diárias, evitando a mecanização da vida. Certo que a morte somente existe no fim da vida e que não devamos morrer em vida, muito antes dela.
A vontade de viver valoriza mais a vida. Bem por isso, o chamado constante de prestarmos mais atenção a ela, dando-lhe o melhor sentido. O futuro deve ser o campo de investigação de nossas vidas, posto que o tempo humano é, essencialmente, futuro. Essa ideia dialoga com Martin Heidegger, a saber que “o ser humano é um “ser-para-o-futuro” (“Sein zum Entwurf”) e que a existência autêntica não se fecha no passado, mas se abre ao possível. Nessas assertivas, há sentido ético, apontando que a velhice biológica não implica envelhecimento interior e que a verdadeira juventude é a capacidade de ainda desejar o futuro.
Há quem já viva somente de lembranças, reportando-se apenas ao passado, enclausurado nas memórias, sem metas ou novos propósitos, quedando-se inerte, desperdiçando a vida, e há quem, como Galileu, aos 75 anos, mesmo condenado à prisão domiciliar perpétua (22.06.1633) pelo “Tribunal da Santa Inquisição” por defender o heliocentrismo, ainda vivia de expectativas. Não é a idade que define o tempo vivido, mas a direção do olhar. Convenhamos, não é o passado que sustenta a vida; é a promessa interior do que ainda pode ser.
A vida não é só conservação, mas afirmação e potência, porquanto viver é querer mais vida, intensificar a existência, criar sentido. Ontologicamente, a vida é um impulso que se autoafirma. Como argumenta o austríaco Victor Frankl, em sua obra clássica “Em Busca de Sentido”, a principal motivação humana é a busca por propósito, o homem não vive apenas por prazer ou poder, mas por vontade de sentido. Mesmo em condições extremas, quem encontra um “porque” continua vivendo, na essência da vida. Existencialmente, viver é uma permanente decisão renovada, vínculo e energia vital.
Na psicologia humanista de Abraham Maslow, o ser humano tende à autorrealização, no nível mais alto de buscar seu potencial máximo, criatividade e talento; por ser a vida um movimento ascendente, sobreviver, pertencer e realizar-se. Porque viver é expandir-se em direção ao próprio potencial.
Assim, somos todos montaignistas, perfazendo ensaios fluidos e apaixonados pela vida. Como Galileu Galilei e Edgard Pessoa de Melo, permanecemos projetivos e não retrospectivos. O futuro chama, ele dá sentido ao presente.
Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista
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