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UMA PARTILHA DE PAIS DO GAAA — GRUPO DE APOIO À ADOPÇÃO DE ANGOLA
Susana Leite é mãe de três filhos, sendo um deles por via da adopção, experiência que moldou a sua visão sobre a parentalidade, a identidade e a diversidade.
Integra o Grupo de Apoio à Adopção de Angola (GAAA), participando na promoção do direito de todas as crianças a uma família e o slogan que " A adopção é uma forma de parto". A sua vivência enquanto mãe numa família racialmente diversa tem reforçado o seu compromisso com uma educação consciente, assente no respeito, na inclusão e na valorização de todas as identidades.
Acredita que ser mãe é um caminho de aprendizagem contínua, onde o amor se constrói com presença, consciência e responsabilidade.
UMA PARTILHA DE PAIS DO GAAA — GRUPO DE APOIO À ADOPÇÃO DE ANGOLA
Nossa experiência como pais em adopção transracial
Durante muito tempo acreditámos que bastava amar. Quando decidimos adoptar, sabíamos que a nossa filha seria uma criança negra. Essa dimensão nunca foi obstáculo nem condicionalismo. Era, simplesmente, a nossa filha.
Nestes primeiros cinco anos, crescemos como pais com naturalidade, convencidos de que o afecto, a educação e a estabilidade seriam suficientes para lhe dar segurança. No entanto, com o tempo fomos percebendo que essa convicção era incompleta e, por isso mesmo, precisávamos de estar mais preparados do que imaginávamos.
Somos pais brancos. Podemos ser atentos, informados e disponíveis, mas não sabemos, por experiência própria, o que significa crescer sendo uma pessoa negra numa sociedade onde ainda subsistem formas de discriminação racial, por vezes subtis, mas sempre reais. Reconhecer esse limite não diminui a nossa parentalidade; obriga-nos, pelo contrário, a exercê-la com mais consciência.
Queremos proteger a nossa filha, naturalmente. Mas queremos sobretudo dar-lhe recursos para que aquilo que possa ouvir ou viver por causa da sua cor de pele não abale a sua autoestima nem a faça sentir-se menor.
Recordamo-nos de um relato de uma pessoa negra que ficou profundamente constrangida por ter sido confundida por uma funcionária numa loja. Na altura, não entendemos totalmente a dimensão daquele desconforto. Já nos aconteceu sermos confundidos noutras situações, e isso nunca nos afectou de forma significativa. Só mais tarde percebemos que o impacto não está apenas no episódio isolado, e sim na história colectiva, na repetição de experiências semelhantes ao longo do tempo. Pequenas situações acumuladas podem transmitir uma mensagem de desvalorização, e compreender isso tornou-se fundamental para sabermos como preparar a nossa filha.
Já vivemos situações concretas com a Mel que nos fizeram reflectir. Em operações de trânsito, quando a polícia nos manda parar, é habitual pedirem os documentos dela e não dos outros filhos. Pode não haver intenção consciente, mas a repetição não é indiferente. No colégio, um menino disse-lhe que só brincava com “meninos da cor bege”. Quando ela nos contou, dissemos que aquela afirmação estava errada e que todas as pessoas têm igual valor. Falámos com a direcção do colégio, não com o intuito de punir, mas de sensibilizar, porque acreditamos que as crianças reproduzem categorias que aprendem e educartransforma mais do que sancionar.
Houve também uma fase em que ela expressou o desejo de ter a nossa “cor bege”. Interpretámos inicialmente como vontade de se parecer connosco. Depois entendemos que pode haver algo mais profundo, o desejo de querer mudar para pertencer. Se o modelo dominante à volta da criança associa valor a determinadas características, é natural que tente aproximar-se delas. É aqui que a parentalidade numa família racialmente diversa exige vigilância e delicadeza, porque está em causa a identidade da criança e a segurança em relação a quem ela é. Não basta afirmar que todas as cores são bonitas. É preciso construir, no quotidiano, uma imagem positiva da negritude que não dependa de comparação com a branquitude.
Até no seio da família já ouvimos comentários sobre ela ser “muito escurinha”. Na altura não reagimos, talvez por surpresa ou por não querer criar tensão. Hoje percebemos que o silêncio pode normalizar aquilo que nos incomoda e que precisamos de aprender, enquanto pais, a posicionar-nos com serenidade e firmeza.
Temos ainda ouvido alertas que nos fazem reflectir. Já nos disseram que devemos prepará-la para ter determinados cuidados em certos contextos, como evitar usar capuz ou gorro para não ser confundida com algo que não é. Esse tipo de preocupação nunca surgiu em relação aos nossos filhos brancos. São advertências que nos mostram asdimensões de uma realidade social que não conhecíamos. Se queremos preparar a nossa filha para o mundo, precisamos primeiro de reconhecer a existência dessas camadas.
Ao mesmo tempo, não desejamos que a diferença seja vivida como estigma dentro da nossa própria casa. Quando caminhamos na rua e vemos aqueles olhares de estranheza, “dois pais brancos com dois filhos brancos e uma filha negra”, sentimos responsabilidade, nãodesconforto. A nossa família é plural na aparência e una nos vínculos. O desafio está em garantir que essa pluralidade seja integrada como dado natural, sem negar que a sociedade nem sempre a lê da mesma forma.
Procuramos encontrar um equilíbrio, em vez de simplesmente negar a existência de diferenças ou fingir que o mundo é sempre justo. Tudo temos feito para não permitir que essas circunstâncias definam quem a nossa filha é.
Sermos pais por via da adopção transracial coloca-nosquestões que vão além da constituição jurídica do vínculo, porquanto o maior desafio está em assegurar o desenvolvimento integral da Mel, o que inclui a sua identidade racial e a ligação profunda à sua origem. Nãopodemos oferecer-lhe a experiência de crescer sendo uma pessoa negra; contudo, podemos criar condições para que ela construa essa dimensão de si com referências positivas, contacto com outras pessoas negras e espaço para falar sobre o que sente, mesmo quando não compreendemos totalmente.
Acima de tudo, queremos que cresça sabendo que é profundamente amada e que reconheça orgulhosamente todas as dimensões da sua identidade como parte constitutiva de quem ela é, em vez de as apagar para facilitar a integração.
Estamos a aprender e a ajustar-nos. Crescemos com ela em consciência para lhe dar continuidade, nunca ruptura. Talvez seja isso que significa ser uma família transracial. Não temos respostas definitivas, mas mantemos a coragempara fazer as perguntas certas e caminhar juntos.
Rui Silva e Susana Leite
Os artigos assinados aqui publicados são inteiramente de responsabilidade de seus autores e não expressam posicionamento institucional do IBDFAM