Artigos
Quantos corpos femininos serão necessários para despertar a ação dos bons?
Joyceane Bezerra de Menezes Indignada, Advogada e Professora Universitária Presidente da Associação As Civilistas
Quantos corpos femininos serão necessários para qualificar uma sociedade como violenta, misógina, machista, cruel e injusta? Quantos órfãos do feminicídio serão necessários para que se entenda que o problema da violência contra a mulher é um problema de homens e mulheres? Quando discutiremos sobre a onda crescente de masculinidade tóxica que tem sido retroalimentada por argumentos mal elaborados de uma ideologia conservadora em voga, no país? Um influenciador associado ao movimento Red Pill, que dissemina nas redes sociais um discurso misógino e machista conclamando homens ao “resgate” da masculinidade, foi conduzido à delegacia após agredir a namorada e tentar estuprá-la, afirmando que ela não poderia negar-lhe sexo. No Rio de Janeiro, um deputado estadual foi igualmente acusado de espancar a esposa. Em outro caso, um professor universitário, com imagem de “bom moço” e defensor de valores plurais, está sendo investigado por dopar e estuprar mulheres — já são ao menos 24 vítimas relatadas. Terminou o Mercúrio Retrogrado e a coisa não “despiora”. Os últimos dois meses do ano estão fazendo valer a afirmativa da Ministra Carmen Lúcia – não existe sociedade justa com uma mulher morrendo a cada 6 horas. Entre 21/11 e 4/12, uma sequência de atos violentos contra a mulher explodiram na mídia, expondo a realidade dramática do país. Em Florianópolis, no dia 21/11, um homem, de 21 anos, estuprou e matou a professora Carolina Karsten enquanto ela caminhava em uma trilha, rumo à natação. No dia 27/11, em Jaborandi (BA), um homem de 27 anos assassinou a ex- namorada, Ingrid de Jesus. Em 28/11, no Rio de Janeiro, um homem, de 26 anos, atirou e matou a professora Alane de Sousa Matos e psicóloga escolar Laise C. Pinheiro, no Centro Federal de Educação. No sábado, 29/11, o terror foi ainda mais intenso: um homem ateou fogo na casa, em Recife (PE), matando a esposa e os 4 filhos; outro, de 26 anos, atropelou Taynara Santos, arrastando-a por cerca de 1 km, na cidade de São Paulo; um terceiro, matou a ex-namorada, Jhessilane Silva (24 anos) com golpes de facadas, em Maranguape (CE); e um quarto, soldado da Polícia Militar do Ceará, matou a tiros a sua companheira, Larissa Gomes da Silva (26 anos), depois de um longo histórico de agressões. Em SP, no dia 1/12, um homem disferiu quatro disparos contra sua ex- companheira, Evelyn na pastelaria onde ela trabalhava. Dentre outros crimes recentes, Rosilene Barbosa, 38 anos, que morreu com vários tiros dados pelo ex-marido, em Rio Verde (GO); Tatiana Correia dos Santos, de 38 anos, morreu ao ser esfaqueada pelo ex- companheiro em Cordeirópolis (SP); e Jane Oliveira, 47 anos, morta a facadas pelo ex- marido em Valparaíso (GO). Muitas dessas mulheres deixaram órfãos. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública o feminicídio aumentou em 2024 e, de janeiro a setembro de 2025, mais de 2,7 mil mulheres sobreviveram a ataques com intenção de matá-las, embora outras 1.075 tenham morrido. A resposta institucional passa pelo aumento do controle criminal e não é eficaz quanto à destinação de orçamento para políticas públicas mais efetivas. Embora o feminicídio seja o tipo penal de maior pena, esse crime aumentou em 26%, no ano de 2024, segundo os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. De janeiro a setembro deste ano, foram 1075 mulheres assassinadas, enquanto 2,7 mil sobreviveram aos ataques. Seguimos nossas vidas, contemplando essas notícias com algum estranhamento, aliviados porque o fano não aconteceu conosco (ainda...). Observadores externos se apressam em lançar dúvidas sobre a palavra da vítima. Admiram-se, procurando encontrar elementos para explicar a conduta do abusador ou atrasar providências institucionais cabíveis – lembro isso, em relação ao caso do professor engomadinho. Acostumamo-nos a desdenhar os pequenos gestos de violência ou a reagir com um susto contido e passageiro, deixando a vida seguir sem que esses fatos registrem qualquer memória. Afinal, os nomes de mulheres estampados na mídia ou nos inquéritos não são de nossas mães, irmãs ou filhas. Deu-se o que Hanna Arendt nominava como “a banalização do mal”. Com tristeza relembro a frase de Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” De que somos feitos? O que corre em nossas veias? Onde está a espiritualidade dos cristãos que já somam a maior parte do povo brasileiro? Onde estão os defensores da família? Precisamos reconhecer que o comportamento violento contra a mulher precisa ser enfrentado com a participação ativa dos homens. Sem o comprometimento deles não alcançaremos a igualdade tampouco nos livraremos da iminente ameaça do ataque. Enfileirem-se conosco, porque vocês são pais, irmãos e filhos. Não é suficiente não bater, humilhar, constranger, seviciar ou inferiorizar. Se você presencia qualquer episódio de violência moral, psicológica, vicária, patrimonial e não se pronuncia, você é cúmplice social. Se assiste aos noticiários e não encontra uma forma de se insurgir contra esse estado de coisas, você é cúmplice social.
Os artigos assinados aqui publicados são inteiramente de responsabilidade de seus autores e não expressam posicionamento institucional do IBDFAM