Artigos
Uma etimologia histórica de vocábulos
Jones Figueirêdo Alves
Impende reconhecer o quanto uma etimologia histórica de vocábulos interessa a identificar o significado e o significante de palavras, em uma realidade vivida de fatos que lhes deram origem.
A raiz etimológica do vocábulo “idiota” vem do grego “idios”, significando “privado”, ou seja, aqueles “idiótes” incapazes, desde a Grécia antiga, de uma atuação política, não sendo a “polis” objeto de suas atenções. É o que relata Rubens Casara, em sua recente obra “A construção do idiota: o processo de idiossubjetivação” (Ed. Da Vinci Livros, 2025), a denunciar um atual “período histórico notável pela valorização social da ignorância”, o que tem levado a humanidade “a reproduzir uma vida não apenas estúpida, mas profundamente infeliz”.
De fato, essa produção intencional da ignorância, com ganhos políticos e eleitorais, tem provocado idiotas, quando José Saramago já advertia: “o heroico em um ser humano é não pertencer a um rebanho”.
Convém, assim, lembrar que os latinos utilizaram o mesmo termo para dizer “livre” e “livro”, ou seja, a paixão por ler foi uma das formas de libertar a alma. Essa é uma chave essencial para a liberdade de saber das coisas e não sermos escravizados por posturas radicais.
Também se afirme com relação aos conceitos, onde, por exemplo, o vocábulo “maquiavelismo”, já incluído no vocabulário da Filosofia Política, tem origem no nome do escritor renascentista Nicolau Maquiavel em face de sua obra “O Príncipe”. Conceito esse “usado em relação aos líderes políticos que ascenderam por seu caráter despótico e autoritário” e louvados sempre, “porque os vulgares são sempre tomados pela aparência das coisas e pelo que decorre disso” (“Mentes Maquiavélicas: a psicologia da manipulação”, de Tamás Berezckei; Ed. Vozes,2019).
A palavra "nômade" tem origem no grego antigo "nomás" que significa "errante", e está relacionada à busca por pastagens. Essa palavra grega deriva de "nomos" que significa "pastagem" ou "território". Então, nômades são aqueles que se movem com seus rebanhos por destinação da procura de pastos melhores.
A etimologia histórica é fascinante porque revela como as palavras tiveram suas origens. Vejamos o vocábulo “salário”. Do latim “salarium”, era uma quantia paga aos soldados romanos para comprar sal, um bem essencial e valioso na Antiguidade. O seu sentido histórico de representar pagamento regular por um serviço, faz a conexão que liga diretamente economia e sobrevivência. No sentido figurativo há quem entenda uma pessoa salgada aquela pessoa irritada, bem por certo à conta de seus baixos salários.
Por falar em dinheiro, a palavra tem a origem latina de “denarius”, nome de uma moeda romana. O denário era uma das moedas mais comuns no Império Romano, o deu origem a palavras como dinero (espanhol), denaro (italiano) e “dinheiro” em português.
Uma realidade histórica muito eloquente, em tempos todos, tem sido a partilha da comida, como fato social que constitui um dos laços mais antigos e solidários. Da sua origem latina, com (com) + panis (pão), decorreu o vocábulo “companheiro”, aquele com quem você divide o pão.
Nessa diretiva, acrescentam-se dois outros exemplos significativos; (i) A etimologia influencia a visão sobre o que é religião: reconexão ou disciplina. Logo, de “religare” (ligar novamente), uma ideia permanente de reconexão com o divino. (ii) O conceito de justiça está ligado à ideia de "reto", "alinhado", "sem desvios", tanto literal quanto moralmente. Assim, “Direito”, vem do latim “directum”, o que está em linha reta, o que é justo.
Oportuno lembrar que na Idade Média, a “coragem” era vista como uma força que vinha do coração, implicando não apenas bravura, mas integridade. Do latim “cor“ (coração) mais o sufixo “aticum”, tem-se o significado original de agir com o coração.
A “pessoa” tem a origem do latim “persona”, significava "máscara", usada por atores no teatro romano. Ou seja, a “persona” era o papel ou personagem, não o indivíduo real. A palavra evoluiu para significar o “eu social”, o indivíduo diante da sociedade e, ainda, influencia termos como o de “personalidade”. A seu turno, o “infante”, é a pessoa situada no período antes do domínio da linguagem, significando aquele que não fala (“in”, negação e “fari”, falar). E aquele que vem da terra (“humus”), em contraste com os deuses, é o “humano” (“humanus”). Daí, a humildade vem de nossa precária condição humana.
Curiosa é a origem da palavra “regra” que vem da mesma raiz da palavra “rei” (“rex”), de “regere” (guiar, dirigir), visto que o rei era quem estabelecia o caminho a seguir. As palavras "sentença" e "sentimento” possuem também raízes comuns, posto que a primeira (do latim “sententia”), tem a raiz do verbo “sentire”. Quando o juiz decide em uma sentença do seu ofício, ele em sua percepção interna sente a questão posta, utiliza seu sentimento (“sentimentum”), embora em seu julgamento formal adote o caminho do intelecto.
Na linha de um pensar reflexivo, convoca-se a afirmativa do filosofo Baruch Spinoza, a dizer que não existem o Mal e o Bem, em termos absolutos. Somente o mau e o bom, segundo cada um. E porque estamos nessa seara filosófica, Fernando Savatier, filosofo espanhol de valiosa presença atual, questiona: “E então por que são más as mulheres más, que não devem ser confundidas com as más mulheres, que só podem ser más porque não podem ser outra coisa?” (“Desperta e Lê”, Ed. Martins Fontes, 2001).
A sua palavra notável é uma comparação e um discurso. Nada menos que a própria origem latina do vocábulo “palavra” como uma “parábola”.
Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista
Os artigos assinados aqui publicados são inteiramente de responsabilidade de seus autores e não expressam posicionamento institucional do IBDFAM