“Só não posso dizer o nome”: Helvécio Ratton aborda abuso sexual na infância em novo filme inspirado em relato autobiográfico
Assessoria de Comunicação do IBDFAM
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O silêncio que encobre a violência sexual sofrida dentro de casa é o ponto de partida de Só não posso dizer o nome, novo longa-metragem do cineasta Helvécio Ratton, com estreia prevista para 12 de novembro nos cinemas. Inspirado na graphic novel autobiográfica No abuses (de este libro), da chilena Nati Chuleta, o filme acompanha uma jovem que enfrenta as consequências dos abusos sofridos na infância e encontra na arte uma forma de narrar a própria história.
A trama acompanha Tina, que passa a sofrer abusos do padrasto, Ramon, após se mudar com a mãe para a casa dele. Sem encontrar apoio familiar, a garota recorre ao desenho e à imaginação para suportar a violência. Ao completar 18 anos, decide denunciar o agressor à Justiça, contrariando a vontade da família. Na narrativa, a criação de uma super-heroína funciona como refúgio diante do trauma e recurso para expressar uma experiência que permaneceu silenciada por anos.
Em entrevista ao IBDFAM, Ratton conta que conheceu a obra pouco depois de seu lançamento, em 2016, e se interessou tanto pela coragem da autora ao compartilhar sua história quanto pela maneira como ela combina humor e referências à cultura pop sem amenizar a gravidade do relato.
“Fiquei encantado com a coragem da Nati em se expor dessa maneira e com o tom leve que conseguiu imprimir ao seu relato, embalado por humor e recheado de símbolos da cultura pop que tornam o livro atraente para os jovens e importante para os adultos. Tudo isso sem perder a contundência, sem tirar a dureza de um relato como este”, afirma.
Contexto brasileiro
A adaptação exigiu, segundo ele, adequações ao contexto brasileiro, especialmente em relação às diferenças entre os sistemas de Justiça na abordagem dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes.
A escolha do elenco também foi um desafio. O cineasta optou por atores e atrizes desconhecidos do grande público e realizou uma série de testes para encontrar os intérpretes dos personagens. Lara Martinelli interpreta Tina na primeira fase, enquanto Laura Del Picchia assume o papel na segunda.
Na construção da narrativa, a arte ocupa um lugar central: tanto na história de Tina quanto na experiência autobiográfica que inspirou o filme, o desenho se torna um meio de romper o silêncio e compartilhar a violência vivida.
“A arte, no caso da autora e da personagem, foi a forma que encontraram para compartilhar com todos o que viveram e se tornaram mais fortes do que as sequelas do abuso. Realidade e ficção se encontram nesta história para mostrar que há caminhos para a superação”, explica.
Pactos de silêncio
Além de abordar os efeitos da violência sexual, o longa busca questionar a percepção de que esses crimes estariam restritos a determinados grupos sociais. Na avaliação do diretor, situar a história em uma família de classe média, em uma grande cidade, contribui para confrontar estereótipos sobre o perfil das vítimas e dos contextos em que os abusos acontecem.
“Há uma ideia, um tanto generalizada, de que esses casos acontecem na periferia, nas favelas ou em regiões mais remotas do país. A história contada no filme, no entanto, traz o tema para dentro de uma família de classe média, em uma grande cidade. Traz para bem perto de nós e mostra que a violência sexual contra crianças não tem classe social nem cor de pele”, afirma.
Para Ratton, o enfrentamento da violência exige que a sociedade rompa os pactos de silêncio que dificultam a revelação dos abusos. O diretor defende que o tema não seja tratado como uma questão restrita às vítimas e às mulheres, mas como uma responsabilidade coletiva.
“A arte tem o poder de tocar corações e mentes, de emocionar e fazer pensar. Só não posso dizer o nome se dirige a todos e deve provocar polêmicas e reflexões. O combate ao abuso de crianças e adolescentes interessa à sociedade, não somente às mulheres. Precisamos quebrar o pacto de silêncio, gerado pelo medo e pela omissão, que envolve um assunto tão grave como este”, conclui.
Por Guilherme Gomes
