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O peso de decidir sobre famílias: vocação, humildade e responsabilidade institucional.

Exclusivo para associados.


Isabela Loureiro[1]

Há processos em que o erro não nasce da falta da lei.

Nasce da falta de escuta.

Da vaidade travestida de autoridade.

Da convicção pessoal ocupando o lugar da prova.

Da experiência íntima de alguém sendo projetada sobre a vida de outro.

Nem todo mundo que decide, avalia ou julga situações familiares consegue manter a distância necessária entre o que viveu, o que acredita e o que está realmente nos autos.

E quando isso acontece, a técnica deixa de ser técnica.

O processo deixa de ser processo.

A pessoa deixa de ser pessoa.

Vira categoria.

Vira rótulo.

Vira mais um caso encaixado à força em uma narrativa pronta.

Talvez uma das maiores tragédias do sistema seja essa: a dificuldade de reconhecer o próprio erro.

Porque errar é humano.

Mas sustentar o erro por orgulho, por blindagem institucional, por medo de parecer frágil ou por incapacidade de voltar atrás, pode destruir vidas.

Na advocacia, existe uma solidão difícil de explicar.

A gente aponta inconsistências, vícios, contradições, atropelos e muitas vezes é tratado como se estivesse atacando pessoas, e não defendendo garantias.

Como se determinadas funções fossem inalcançáveis.

Como se certas decisões não pudessem ser questionadas.

Como se pedir técnica, contraditório e responsabilidade fosse afronta.

Mas não é.

Advogar também é insistir para que o processo não seja sequestrado por vaidades, preconceitos, atalhos ou convicções pessoais.

É lembrar que ninguém deveria ocupar uma função pública apenas pelo cargo, pelo status ou pelo dinheiro.

Algumas funções exigem vocação.

Exigem humildade.

Exigem coragem para revisar a própria rota.

Exigem maturidade para compreender que autoridade não é licença para projetar dores, crenças ou certezas pessoais sobre a vida de quem está sendo julgado.

O sistema não falha apenas quando decide contra alguém.

Ele falha quando deixa de ouvir.

Quando não corrige o que sabe que está errado.

Quando protege mais o erro do que a pessoa prejudicada.

Quando transforma quem aponta a falha em inimigo.

E talvez a pergunta mais incômoda seja:

até quando vamos chamar de justiça aquilo que, em determinados momentos, parece apenas a manutenção silenciosa de um poder que não admite ser questionado?

 


[1] Advogada, especialista em Direito de Família e Alienação Parental pela PUC-Rio, especialista em Direito Público e membro do IBDFAM, autora de artigos científicos, Sócia do escritório Regina Rodrigues e Isabela Loureiro Advogadas.

 

Em breve. Depende do e-mail oficial do IBDFAM.