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A permanência do comum
Jones Figueirêdo Alves
Vivemos numa cultura fascinada pela novidade. O novo parece possuir valor simplesmente porque chegou depois. Trocamos objetos, imagens, opiniões, lugares e até vínculos com uma rapidez que nos impede de descobrir aquilo que somente o tempo revela. Mas certas coisas precisam permanecer para adquirir profundidade. Uma amizade antiga, uma casa conhecida, um livro relido, uma rua percorrida durante anos, uma conversa que se repete, tudo isso acumula camadas de significado.
O comum é uma escola de permanência. O extraordinário impressiona; o comum sedimenta. O comum é aquilo que pertence à experiência ordinária, a rotina, os gestos repetidos, os acontecimentos que não chegam às manchetes. E, no entanto, é justamente aí que a maior parte da vida acontece. O extraordinário é episódico; o comum é permanente.
A sociedade contemporânea parece ter desenvolvido certa aversão ao comum. As redes sociais intensificaram uma cultura da excepcionalidade, será preciso uma experiência extraordinária, uma opinião original, uma imagem admirável, uma vida aparentemente singular. O simples passou a parecer insuficiente. Surge, então, um paradoxo; milhões de pessoas procuram desesperadamente ser diferentes exatamente das mesmas maneiras.
Talvez por isso a memória tenha uma preferência secreta pelas coisas pequenas. Quando revisitamos o passado, raramente encontramos apenas os grandes acontecimentos. Retornam também uma janela, uma música distante, o cheiro de uma casa, uma mesa onde alguém costumava sentar, uma frase aparentemente sem importância. A memória transforma o cotidiano em patrimônio.
Há nisso uma espécie de justiça tardia da existência, aquilo que parecia insignificante enquanto acontecia torna-se precioso quando já não acontece mais. Mas seria triste precisarmos da ausência para compreender a presença.
A verdadeira sabedoria talvez seja antecipar essa descoberta. Olhar para aquilo que temos hoje com os olhos de quem um dia poderá sentir sua falta. Não para viver sob a melancolia da perda, mas para conceder ao presente a dignidade que ele merece.
Então compreendemos que felicidade e euforia são coisas diferentes. A euforia necessita do acontecimento; a felicidade pode morar na continuidade. Ela não exige fogos de artifício. Muitas vezes prefere a luz acesa de uma casa.
Há também uma ética do comum. As grandes virtudes raramente aparecem em atos heroicos. A bondade verdadeira é quase sempre repetitiva. Cumprir a palavra. Chegar quando alguém precisa. Escutar novamente uma história já conhecida. Fazer bem um trabalho que ninguém verá. Tratar com dignidade aquele de quem nada esperamos receber. O caráter é construído naquilo que fazemos quando aparentemente nada de extraordinário está acontecendo.
Uma vida não precisa ser extraordinária para ser extraordinariamente bem vivida. O problema do comum começa quando deixamos de enxergar o extraordinário que nele se esconde.
Uma das grandes sabedorias da maturidade é, justamente, a de não precisarmos que a vida seja excepcional para considerá-la valiosa. O comum não é aquilo que sobra quando retiramos o extraordinário. O comum é o lugar onde o extraordinário, quase sempre silenciosamente acontece.
O comum é a obra-prima da vida porque é nele que o tempo trabalha em silêncio. O extraordinário produz lembranças; o comum produz existência. Viver com sabedoria talvez seja reaprender a admirar aquilo que a repetição nos ensinou injustamente a não ver.
A obra-prima não precisa ser aquilo que acontece uma única vez. Pode ser justamente aquilo que, de tão essencial, merece acontecer todos os dias. Acordar, reconhecer quem amamos, conversar, trabalhar, recordar, contemplar, ouvir, voltar para casa. A repetição não lhes retira grandeza. Muitas vezes esconde a grandeza pela familiaridade.
Quem aprende a grandeza do comum deixa de esperar que a vida comece, porque descobre que ela já estava acontecendo.
Jones Figueirêdo Alves é
Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista
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